sábado, 21 de novembro de 2015

Descanse em paz

Público da final da Série D foi o oitavo maior da história
 do Albertão Foto: Magno Bonfim/Drone/TV Clube
Umas das características marcantes do futebol brasileiro são os estaduais e sua regionalidade. Foi mantendo as tradições regionais que a modalidade começou, cresceu e se tornou o que é hoje no Brasil. Contudo, uma das mais legais características do futebol por essas bandas está acabando.

Em nome da tal modernização, o futebol tem sido elitizado de maneira que os torcedores pobres estão sendo afastados e os clubes que não fazem parte dos 12 “grandes” escolhidos pela mídia estão sendo relegados. Como escreveu o jornalista Júlio Gomes em seu blog há alguns meses atrás (veja o texto aqui), este modelo de Série A atende boa parte do público brasileiro, mas este aprendeu com a disseminação massacrante da mídia que devem torcer para times do Rio de Janeiro e São Paulo. Irrelevante dizer que a mídia de massa, aquela com grande poder de penetração no país está concentrada quase que completamente nos dois estados.

E com isso dá-lhe piauienses torcendo para o São Paulo, paraenses torcedor para o Fluminense, roraimenses torcendo para o Corinthians. Veja bem, não sou daqueles que querem ditar regra e dizer para quem cada pessoa deve torcer ou não, mas confesso que não consigo entender como uma pessoa que mora no Piauí, por exemplo, consiga se identificar com um clube como o São Paulo de cores e identidade tão regional que vai até no nome e que em nada tem haver com a pessoa que mora a quilômetros de distância e de realidade totalmente diferente.

Estão nacionalizando o futebol brasileiro nas mãos de poucos desde imprensa, a paixão da torcida e até na base da formação dos melhores atletas. Dessa forma quando vamos ver um Bahia campeão nacional novamente? Eu digo que muito difícil ou uma final como Coritiba e Bangu, aí é que não mesmo.

Torcedor piauiense no Albertão para o maior público da Série D
neste ano Foto: Abdias Bideh/GloboEsporte.com
Não acredite na história de que esse campeonato brasileiro é o mais equilibrado do que outras ligas nacionais. Não existe equilíbrio esportivo quando o desequilíbrio financeiro é enorme. O Corinthians foi campeão brasileiro com todas as honras, meus parabéns, mas tenha certeza que o torcedor vai ver muito mais disso nos próximos anos. O poderio econômico faz esses clubes queridinhos da mídia terem mais dinheiro, mais alcance no país, mais torcida em uma fórmula que desequilibra o futebol nacional. Tenho certeza que vamos chegar ao nível de uma Bundesliga ou La Liga, o campeonato espanhol, daqui nos próximos anos, é natural.

Por isso, no último sábado fiquei com olhos marejados ao ver o Albertão em Teresina no Piauí com 40 mil pessoas para ver não o Vasco, Flamengo ou clubes de fora e sim torcer pelo River- PI na final da Série D contra o Botafogo-SP. Recorde de público da competição que bateu o Remo com suas 30 mil pessoas no Mangueirão na semifinal.

Infelizmente essa festa assim como várias outras são mera nota no cantinho menos nobre dos cadernos de esportes e sites com notícias “nacionais”. O futebol regional respira por aparelhos, agonizando, tentando manter suas tradições neste futebol elitizado, cheio de sócios-torcedores, de audiência, de arenas FIFA que em nada lembra que um dia o futebol foi o esporte do povo. Uma pena.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

No campo das ideias

Dupla formada por Müller e Lewandowski foi um dos destaques
no clássico contra o Dortmund. Foto: AFP Photo/Christof Stache
Determinado dia em uma entrevista de Jürgen Klopp, então técnico do Borussia Dortmund, lhe perguntaram qual era o segredo do sucesso de um time que enfrentava de igual para igual equipes milionárias e as vencia sem o menor pudor. Klopp respondeu exatamente assim: “Contra o dinheiro, as ideias”.

E foi com elas que o antigo técnico conseguiu fazer o Borussia Dortmund figurar novamente entre os grandes clubes europeus com muito menos dinheiro, além de quebrar a eterna hegemonia do Bayern Munique em nível doméstico.

Porém, essas são lembranças que com o passar do tempo estão ficando cada vez mais preto e brancas, cheias de poeira, velhas mesmo. Se antes o Bayern era imbatível apenas com o dinheiro para trazer os melhores jogadores da Bundesliga e de fora dela agora o clube possui mais do que nunca as ideias.

Guardiola é de longe o técnico mais influente do momento no futebol mundial, simplesmente por estar sempre se reinventando, mente inquieta assim como esse Bayern que joga a temporada. Contra o Dortmund de Thomas Tuchel veio uma avalanche dessas ideias da cabeça do espanhol que aliada a excelente mão de obra qualificada em todas as posições foram motivos que derrubaram facilmente os aurinegros na última rodada.

Assim mesmo com uma certa pressão por títulos pairando sobre a cabeça de Guardiola, o técnico possui bases seguras para dar fruto ao que ele pensa sobre futebol e sempre com inovações fica fácil entender o bom começo do time na temporada.

O Bayern fez do clássico algo fácil jogando em uma espécie de 3-3-4. Três zagueiros onde o especialista da função mesmo era o Boateng que foi também o melhor assistente do time. Tinha simplesmente quatro atacantes com dois pontas (Götze e Douglas Costa) e a dupla Müller e Lewandowski e isso sem falar em Xabi Alonso que qualificava mais ainda a saída de bola, fora Lahm e Thiago Alcântara comandando o meio.

Bom toque de bola, jogadores inteligentes e motivados e principalmente boas ideias são algumas das bases que formam esse Bayern que vem crescendo de forma avassaladora na temporada, mas e quanto ao Dortmund? Ainda pode figurar de fato como o perseguidor pela taça?

Creio que não. Deve brigar pela segunda colocação, mas longe do Bayern já que está muito abaixo dos bávaros. Só que essa é a pretensão mesmo, retornar com mais força, o time não é ruim e assim conseguir um vaga a Champions League e ver o trabalho do Tuchel se consolidar. Essa deve ser o principal objetivo do momento: ver se de fato Tuchel tem tanto potencial quanto o futuro indica. Essa é a ideia.

sábado, 19 de setembro de 2015

O feitiço do tempo

Confusão entre Gabriel Paulista e Diego Costa deu início a mais uma
 derrota do Arsenal para o Chelsea. Foto Getty Images
Sabe aquele filme chamado o Feitiço do Tempo onde o protagonista vive o mesmo dia em um loop eterno? Não me lembro bem como termina e nem mais detalhes do filme, mas lembro que o tempo não passava e o protagonista vivia sempre o mesmo dia.

Pois então vendo o jogo entre Chelsea e Arsenal tive uma espécie de reboot onde os gunners vivem a mesma temporada todos os anos assim como o personagem de o Feitiço do Tempo, porém com algumas diferenças, é claro.

Nos últimos anos as pretensões do Arsenal tem sido praticamente as mesmas. Tem ficado entre os primeiros na Premier League, mas sem chegar a ameaçar ficar com a taça nos momentos mais incisivos da temporada. Dessa forma termina a competição sempre com um quarto ou terceiro lugar.

Na Liga dos Campeões geralmente tem chegado às oitavas de final e fica sempre pelo caminho. No fim de uma temporada cheia de críticas, eliminações e derrotas decisivas ainda pode acabar levando a Copa da Inglaterra. Detalhe é que essa conquista nos últimos anos mascara os erros de uma equipe que sempre pode mais e fica devendo.

Fato é que o torcedor do Arsenal tem vivido uma espécie de feitiço do tempo nos últimos anos com as pretensões da equipe terminando sempre da mesma maneira. Nesta temporada no início houve uma espécie de ânimo pelo excelente fim da temporada passada e conquista da FA Cup. Outro fato que elevou os ânimos dos torcedores e time foi a contratação de Cech, mas o baque de que nem tudo sairia como o esperado aconteceu logo na estreia com a derrota para o West Ham.

A derrota para o Chelsea, mais uma por sinal, e o vexame na Croácia para o Dínamo Zagreb na estreia da Champions League deixa bem claro isso. No geral, o time não é ruim, muito pelo contrário, mas o tempo passa e ano após ano a equipe de Wenger não consegue dar aquele salto de patamar que possa levar a uma pretensão maior.

Jogo após jogo fica claro a falta de um atacante de grande nível. Essa tecla é batida repetitivamente quando mesmo com a boa quantidade de gols do Giroud existe a falta de um cara que mesmo num dia ruim carregue o time nas costas e decida os jogos. Definitivamente, Giroud não é nem será esse cara. Talvez a torcida possa empurrar o time em dias ruins, mas essa é tão calada até mesmo nas vitórias que nem reconheço mais aquela torcida fanática de anos atrás.

Nos últimos jogos Walcott tem feito esse papel de atacante único. Sério? Essa não é bem a do bom inglês. No jogo no Stamford Bridge, Cazorla estava fazendo dupla de volantes com Coquelin para iniciar o jogo dos gunners. Erros e mais erros. 

Ainda na partida o que a torcida e afins viram foi um Arsenal inofensivo enfrentando uma equipe que tem um início bem ruim mesmo com toda a força econômica. A expulsão tola do Gabriel Paulista em uma cretinice travestida de estilo de jogo do Diego Costa e consequentemente a derrota só piorou a situação de um time que parece que vai repetir e repetir e repetir o eterno feitiço do tempo em que se encontra.