segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

É hora de dizer adeus

A faixa diz muito sobre o descontentamento da torcida
 Foto: Divulgação
No ano passado em uma derrota do Arsenal no início de temporada para o Chelsea falei da repetição de resultados que o clube passa ano após ano. Sempre eliminado na Champions, termina em terceiro ou quarto lugar na Premier League caindo geralmente de rendimento na passagem de ano.

E parece que este é mais um ano em que a história se repete com a única diferença que o time chegou de fato a acreditar na taça. Está certo que ainda tem bola para rolar e o clube do norte de Londres tem chances. Porém, ser derrotado por um Manchester United cheio de garotos, sofrendo com lesões de vários jogadores e tomando gols bobos não enche ninguém de confiança nesse time. 

Foi no mínimo deprimente o comportamento de uma equipe que tinha muito a bola e não sabia o que fazer com ela. E acreditar é ainda mais complicado quando se vê que a magia do impressionante Leicester parece não acabar e o Tottenham vai a cada rodada levando três pontos com mostras de um regular e bom futebol.

E novamente o problema do Arsenal tem que ser analisado mais a fundo ou simplesmente na figura que comando o clube por 20 anos. Acho que chegou a hora de o senhor de cabelos brancos deixar o comando.

Muitos comentaristas e torcedores brasileiros que geralmente vejo comentando os seguidos insucessos do Arsenal tratam o Arséne Wenger como um técnico ultrapassado. Quase um desrespeito! Ora bolas! Ao contrário deles, não concordo, embora concorde que sua saída seja benéfica para ambos os lados.

Wenger e o trófeu da Premier League em 2004.
Imagem parece distante.
Foto: Stuart Mac Farlane/Arsenal FC/ Getty Images
O que os mais novos em campeonato inglês e agora Premier League não entendem que a chegada do Arséne Wenger ao clube não foi qualquer coisa. Foi à chegada de uma revolução na maneira de pensar o futebol dentro clube. Pergunte a qualquer torcedor do Arsenal que tenha seus mais de trinta e que se acostumaram as chacotas do tipo Boring Arsenal ou One-nil to the Arsenal que inclusive virou hit de arquibancada entre os torcedores gunners.

Meus amigos esses eram tempos de futebol sisudo, chato e burocrático como conta o premiado livro Febre de Bola do Nick Hornby. Para quem é torcedor do Arsenal e quer entender uma grande parte da história do clube e também do futebol inglês esse é um livro altamente recomendável.

Este é um trecho do livro que explica exatamente o que eu falo. Aqui Hornby conta a primeira vez que o garoto foi ao antigo Highbury para um confronto entre Arsenal e Stoke City em 1968. “Acho que nós, torcedores do Arsenal, temos profunda consciência de que o futebol jogado no Highbury muitas vezes não é muito bonito de ver e que, portanto, nossa reputação de time mais chato da história do universo não é tão distorcida quanto fingimos ser; mas, quando o time é vitorioso, muito disso é perdoado. O time do Arsenal que vi naquela primeira tarde era, há algum tempo, um espetacular fracasso”.

Wenger mudou essa reputação. Trouxe novos métodos de treinos, um estilo envolvente, toque de bola, renovação na maneira de pensar o clube trazendo garotos e formando seu estilo até vingarem e serem muito úteis. O time campeão inglês invicto e vice da Europa não foram pontos fora da curva e sim, o ápice de um trabalho que rendeu até menos títulos do que deveria.

Vi diversos comentaristas e pessoas falando que a manutenção do técnico é uma espécie de gratidão pelo título invicto em 2004, mas estes sabem pouco da importância do francês. O problema da gratidão pode até existir, mas não é apenas pelo título invicto. É muito mais pela história importante construída na história do clube.

Uma gratidão que vai se tornando parasita e comendo o Arsenal em suas entranhas. Uma renovação é mais do que necessário assim como foi antigamente. Não se trata de diminuir a história do francês no clube, mas de não manchar mais do que está. Pode ser bom para ambos uma mudança, pois o futebol se ganha com bola na rede e não com posse de bola. Por vezes até um one-nil to the Arsenal serve.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

A Super Liga Europa

Torcidas apaixonadas são parte do show na Liga Europa
Foto: Reprodução
Confrontos interessantes com camisas tradicionais e com isso um possível campeão imprevisível, além do clima de futebol em sua essência. Essa tem sido a marca da Liga Europa nesta temporada.

Dito isso e com o cenário apresentado não posso deixar de fazer uma comparação séria e dizer que atualmente assistir a Liga Europa tem sido mais agradável do que acompanhar a pomposa Champions League

Pense comigo leitor, na UCL estão todos os chamados milionários, o que faz que nos últimos anos mesmo sendo uma competição mata-mata não seja surpresa vermos sempre os mesmos Barcelona, Real Madrid e Bayern nas finais. Dessa vez o script não deve ser diferente tendo apenas a inclusão do PSG com toda a força do dinheiro catariano.

Para fazer uma análise somente nos últimos quatro anos o Real Madrid, o Bayern estiveram em quatro semifinais, o Barcelona em três. Depois vem Chelsea, Dortmund, Atlético e Juventus com uma.

Sevilha é o maior ganhador da competição.
Foto: Divulgação
E tudo vai se encaminhando para os mesmo estarem novamente ocupando seus postos. O Barcelona detonou o Arsenal na Inglaterra, a Juventus teve que suar sangue para conseguir um empate em casa com o Bayern e o time alemão tem uma vantagem enorme e ainda decide em casa. O PSG bateu o Chelsea em casa e deve passar. Apesar de ainda ter o Manchester City, o Atlético de Madrid, Wolfsburg, Roma, Benfica que tem equipes fortes, além de Zenit, Gent, Dinamo Kiev como o claro papel de zebras, todos devem ficar pelo caminho.

Enquanto isso, na Liga Europa logo nas oitavas está reservado um clássico inglês e confrontos interessantíssimos como o que coloca frente a frente o Dortmund e Tottenham. E outro ponto que conta muito é a festa das torcidas. Na UCL tudo ficou muito quieto, estéril, silencioso, são quase torcidas de papel que tem até a hora certa de desfraldar as bandeiras. Argh!!!! Na Liga Europa, torcidas apaixonadas que cantam o jogo todo e fazem uma festa incrível é algo normal. Veja o confronto entre Dortmund e Porto e terá uma noção disso.

E no Brasil, a principal competição européia continua em parte sumida dos televisores brasileiros, embora nesses últimos dias tenha ficado um pouco melhor com a chegada do Esporte Interativo em outras operadoras de televisão fechada já a “segunda divisão européia” tem várias transmissões e o telespectador pode escolher qual jogo quer assistir. Contudo, dessa vez parece que a Liga Europa não é mais apenas a copa dos perdedores como falou certa vez Franz Beckenbauer. Não é mesmo Kaiser?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O futebol ainda é do povo?

Protesto inteligente de torcedores que viram
 ingresso no valor de R$ 100
Foto:Luiz Munhoz/Fatopress/Gazeta Press
“Vocês podem protestar antes e depois, mas durante o jogo você quer todo mundo lá. A vida não é fantástica todos os dias. Às vezes ela é entediante, às vezes é difícil, para muitas pessoas. O futebol é um momento de alegria na sua vida, então não deixe passar”.

Começo esse texto com as palavras do técnico do Arsenal, Arsene Wenger a BBC alguns dias antes do protesto dos torcedores que estava marcado para acontecer no confronto que seu time irá fazer contra o Leicester.

O técnico mostra o lado que está com uma desculpa, mas concordo com ele que o futebol é um momento de alegria, mas na Inglaterra e em vários outros países este momento se transformou em algo caro e para poucos no estádio.

Os diversos protestos de torcidas importantes têm evidenciado um problema que está acontecendo em vários estádios ao redor do mundo. Os preços dos ingressos subiram, o público virou consumidor todo sentadinho na cadeira, o clima do estádio acabou. O teatro dos sonhos virou um teatro mesmo, em silêncio com torcida comportadinha. Esta agora virou consumidor, os mais pobres, modestos foram afastados do estádio.

O protesto dos torcedores do Liverpool saindo do Anfield Road antes do fim do jogo foi fenomenal e o que aconteceu depois mais ainda. Sem seu povo o Liverpool que estava ganhando a partida sofreu o empate. O retrato de um clube que vira as costas para sua gente. Se perde a alma, a cor. Sem torcida um clube não é nada.

Protesto dos torcedores do Liverpool. Por lá, eles
conseguiram a diminuição dos preços
 Foto: Reuters
Outro protesto que chamou atenção foi da torcida do Borussia Dortmund que jogou bolinhas de tênis no campo também protestando pelo alto preço do ingresso cobrado pelo Sttugart na Copa da Alemanha.

O futebol virou um rentável negócio e agora enfrenta o dilema de fazer parte da cultura popular e ser uma atividade de entretenimento. Um limite tênue que infelizmente tem pendido para o lado dos negócios. Por isso, é estranho ver Wenger que esteve ao lado de uma das torcidas mais empolgantes da Inglaterra falar tantos absurdos.

Ele mais do que ninguém viu uma torcida fanática se transformar em uma platéia de teatro. O Arsenal perdeu o clima, a alma de Highbury pelo dinheiro do Emirates. Um imenso estádio de mais de 60 mil lugares mortos. Belíssimo, mas um símbolo dos novos tempos.

Wenger ficou do lado do patrão, eu fico do lado das torcidas que reivindicam o seu direto de ir ao estádio. Futebol sem torcida não é nada. Eles estão acabando com o esporte que já foi do povo.

Por aqui, então, o processo de elitização foi acelerado com as “modernas” arenas para a Copa do Mundo, mas o pior por essas bandas é que até nos estádios mais acanhados e para jogos ruins dos estaduais estão cobrando ingressos caros. O “jogaço” entre Internacional e Aimoré tinha o valor mais barato de R$100 em um estádio com uma parte interditada pelos Bombeiros. De bom mesmo em um jogo ruim foi o boneco colocado nas arquibancadas em forma de protesto.

E pior ainda se é que pode ficar pior é que ao contrário de países como a Inglaterra em que torcedores conseguem se fazer ouvidos, por essas bandas juiz para o jogo e fala para jogador fazer um pedido a sua torcida para retirar as faixas de protesto. Como assim? Censura? Isso mesmo censura no jogo do Corinthians.

É meus amigos, tem algo de muito errado com nosso país quando as pessoas nem protestar não podem e ainda levam porrada da Polícia Militar que deveria proteger os interesses da população, mas protege mesmo são os interesses dos poderosos.Como diria Renato Russo:"...não consigo encontrar abrigo, meu país é o campo inimigo".
Zico comemora um gol com vários apaixonados na antiga geral. O futebol ainda é do povo?
Foto: Divulgação

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

As duas faces de um Super Bowl

A satisfação de uma vitória inesperada para Manning
Foto: David J, Philip
Esse Super Bowl ficou marcado em duas expressões faciais que pude perceber durante o jogo e após também. Uma de irritação e outra de satisfação. Dois rostos, duas faces que explicam muito bem como foi o jogo para os quarterbacks de Carolina Panthers e Denver Broncos.

A primeira delas é a expressão de irritação e incredulidade do Cam Newton. Que foi ficando mais evidente, principalmente, no terceiro quarto quando parece que percebeu que estava sendo dominado de forma visceral pela defesa dos Broncos. 

A outra face aconteceu após o jogo, já na comemoração do Denver Broncos. O rosto de Payton Manning olhando o troféu Vince Lombardi com uma cara de satisfação. Aquela cara de quem diz "achei que nunca íamos nos reencontrar de novo, mas estou aliviado que aconteceu”.

E foi isso. Para aqueles que adoram uma grande jogada, muitos pontos, esse Super Bowl não foi esse jogo. As defesas dominaram e jogaram muito, principalmente a de Denver. Confesso que esperava exatamente isso, defesas preparadas e minha única dúvida era como a melhor defesa da temporada ia conseguir parar o forte quarterback de Carolina. 

Touchdown de Jonathan Stewart. Um dos raros momentos
bons do ataque dos Panthers. Foto: Reuters
E conseguiu no seu melhor estilo. Pressionando Newton e não deixando o camisa um respirar. Reparem que ele conseguiu interligar apenas duas boas jogadas no terceiro quarto com o Ginn Jr e só. Por isso, a expressão de impotência do jogador que se acostumou a massacrar os adversários nos primeiros momentos do jogo.

Quanto a Manning. Este pode e creio que deveria ser um adeus de um gênio. Nem de longe conseguiu ter uma atuação que seja aceitável. O quarterback foi péssimo o jogo inteiro mostrando que ele está longe fisicamente e tecnicamente do seu melhor. Só que o título está em boas mãos.

E está em boas mãos simplesmente pelo que Manning construiu ao longo de sua carreira. Ele que se acostumou nos seus melhores momentos de Indiannapolis Colts a carregar defesas ruins merece ser carregado até essa final e ao título. Tivesse defesas melhores nessa época, certeza que teria ganhado muito mais troféus Vince Lombardi,

Newton depois irritado saiu da coletiva de imprensa. Uma atitude normal de um jogador competitivo que deve chegar e levar os Panthers a mais Super Bowls nos próximos anos. Time é forte e deve evoluir ainda mais. Por fim, o mundo do futebol americano está esperando um possível anúncio de aposentadoria do Manning. Acho que chegou a hora. Infelizmente.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O duelo de gerações, o passado e o novo

Payton Mannin: o quarterback clássico e seus últimos lançamentos
Foto:Ezra Shaw/ Getty Images
Como um ser vivente da década de 90, acabei me tornando um fã do seriado Arquivo X. Com um enredo inteligente e que envolvia teoria da conspiração, governo, e frases mirabolantes como “eu quero acreditar” e “a verdade está lá fora” e outras.

Com a volta do seriado anos depois de ter se despedido de seu público fiel, a série e seus personagens principais mostram que o passar dos anos fazem diferença e tentam se modernizar. O último episódio que mostra Mulder e Scully se acostumando com a evolução da tecnologia, smartphones, aplicativos e uma espécie de auto-análise foi sensacional.

É algo natural, foi para mostrar que a série e os seus personagens tiveram que evoluir com o passar do tempo e se acostumar com suas novidades assim como eu e você. Pensando nisso, também pode se notar uma evolução e mudanças na posição mais comentada e analisada do futebol americano. Esse Super Bowl que coloca frente a frente Payton Maninng e Cam Newton é perceptível que assim como o Arquivo X existiram mudanças na posição, uma evolução natural.

Para começar este será um duelo de um quarterback de 39 anos, que joga nos moldes do manual do futebol americano. Claro que acrescentando mais brilho e genialidade a isso. Um atleta que há anos é apontado como um dos maiores da história.

Cam Newton e a atualização da maneira de jogar dos quarterbacks
Foto: Getty Images
Payton Manning é esse quarterback, usa a força do seu braço e a inteligência para analisar as defesas adversárias e selecionar a melhor jogada, a big play que decida a partida. O seu forte é o passe, seja ele curto, longo como todo bom manual do futebol americano indica, mas a evolução do esporte, as mudanças do tempo trazem sempre novidades.

Essa novidade é o Cam Newton. Um quarterback que além do passe certeiro, é veloz, forte e une tudo isso no seu estilo de jogo. Faz parte dessa leva de quarterbacks que participam mais do jogo de outras maneiras. Russel Wilson é um desses, Kaepernick foi por algum tempo, mas se perdeu no seu jogo e vejo no Bridgewater alguma qualidade para chegar longe nos próximos anos.

Se precisar dar o passe certeiro Cam Newton pode fazer, se precisar resolver com as pernas ele consegue também, sabe trombar e o Newton não se esconde da trombada. Pouco a pouco foi se transformando em um quarterback mais completo e só tem a crescer mesmo que muitos não queiram ver isso. Talvez por ser negro, uma tremenda bobagem, ou qualquer outra desculpa. Mas esse é assunto para outro dia.

Não quero dizer que o Manning está desatualizado, um passado desatualizado, longe disso, são propostas diferentes em uma mesma posição. São gerações diferentes, com suas visões de como ser um quarterback e que jogam como sabem e como sabem. Nesse duelo de idéias vejamos quem se sairá melhor.

O seriado Arquivo X e seu retorno tentando unir
 o passado e o presente Foto: Divulgação
O próprio Payton respondeu a isso quando perguntado sobre a diferença de 13 anos entre os dois quarterbacks. O jogador dos Broncos deixou claro como Newton e sua forma de jogar tem grandes chances de serem os destaques da NFL pelos próximos anos. Deixou claro que a posição está passando por uma espécie de atualização.

Assim como o seriado Arquivo X que mostrou que pode se renovar colocando frente a frente coisas do passado que foram causas do seu sucesso e as novidades que vieram com o tempo, o Super Bowl 50 traz um duelo de gerações dentro da finalíssima. Uma espécie de passagem de eras na posição como afirmou, acertadamente, o comentarista André Kfouri.