terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A obra e sua moldura

Wendell Lira e o gol no Serra Dourada ainda pelo Goianésia
Foto: O popular
Luxo, tapete vermelho e todos os milionários da bola reunidos. Para ser sincero pouco me importa quem vai ganhar ou não a bola de ouro da FIFA ainda mais nesses tempos de Messi e Cristiano Ronaldo.

Conceder o prêmio com a titulação de “O melhor do mundo” não me entra na cabeça em um esporte coletivo. Poxa, dentro do campo um depende do outro. Para mim não dá premiar um jogador quando ele está inserido em um todo, um sistema e precisa dele para se destacar.

Confesso não entender o motivo de darem tanta importância a esse prêmio. Deve ser porque na nossa sociedade doente se premie sempre o individualismo em detrimento do coletivo. Talvez seja. Contudo ainda mais ridículo que isso é a hipocrisia de participar da premiação de uma entidade envolvida em escândalos, corrupção. Nenhum dos astros falou, ninguém comentou quando um jornalista perguntou, os melhores fugiram do assunto. Que falta faz um Cantona, um Sócrates ou um Gullit.

Pois bem, no tapete vermelho da hipocrisia, na tal festa de gala a simplicidade se fez presente. A história do Wendell Lira chamou atenção porque ele é o jogador de verdade no Brasil. Desempregado a pouco tempo, daqueles esquecidos pela CBF, pela elitização do futebol brasileiro, pelo calendário mal organizado, pelos clubes falidos, pela politicagem e corrupção.

Convido o leitor a prestar atenção nos gols mais bonitos da eleição. Preste bem atenção, o gol do Lira é o retrato do futebol brasileiro. Se o gol é uma obra de arte é nosso dever olhar a moldura. A obra é bonita, ali tem talento, mas desperdiçado em meio a um estádio vazio, feio, em meio a um campeonato vazio, desinteressante, em meio a uma partida jogada para meia dúzia de gatos pingados. A moldura, meus amigos, é feia, carcomida, velha, suja, corrupta, com a cara dos Marco Polos Del Nero da vida, dos coronéis Nunes, dos Maria Marins.

Ver ele ganhar o prêmio foi como ver o amigo que jogava bola comigo no campinho de terra da esquina vencer na vida, pelo menos uma vez em toda a sua vida. Eu mesmo que nunca dei bola para o tal prêmio fui lá e votei no gol dele pelo menos umas três vezes.

Lira é o retrato de uma história que não devia ser assim. Poderia e pode ser melhor. O gol dele é o retrato do futebol brasileiro ainda talentoso, mas desperdiçado pelo todo que o rodeia. Só me pergunto até quando o talento ainda vai suportar tanto desperdício. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário